mova-se: entre o remoto virtual e a rua

 

movências: (trans) figurações. livro. tempo.

anotações


 

Movemo-nos no mundo entre certas criações humanas. Criações cuja natureza é surpreendente. Carregam potências do encantamento: segredos, enigmas, verdades esquecidas. Objetos de memórias, transitáveis e que friccionam corpos e territórios múltiplos e singulares. Permitem deslocamentos, encontros e desencontros. São criações que ora nos convidam ao silêncio e ora nos forçam a proferir palavras. Pedem, geralmente, exercícios de reversibilidade dos sentidos sensíveis (sens sensibles) e sentidos sensatos (sens sensé). É o caso das proposições artísticas e culturais que compõem a exposição Movências: (trans) figurações.livro.tempo. Criações que nos convidam a mudar de posições e reinstaurar o olhar e dois de seus atributos: lucidez e reflexividade. Isto significa que “para ser lúcido, o olhar tem que se libertar dos obstáculos que cerceiam a vista; para ser reflexo, ele tem que admitir a reversibilidade, de modo que o olhar que vê possa por sua vez ser visto”(1).

 

A exposição Movências: (trans) figurações.livro.tempo fricciona a ideia de livro e, com as devidas diferenças, pode ser apanhada como uma espécie de “suplemento” do livro, conceito aqui tomado na perspectiva de Jacques Derrida (2). O “suplemento”, nesta perspectiva, aponta para o inacabamento do livro, para aquilo que ele possui de não-conclusivo, indicia aquilo que é lançado ao futuro do seu inacabamento enquanto “coisa” criada. Um livro, em sua natureza de “coisa”, enquanto composição coletiva, é capaz de reunir sem unificar a singularidade dos criadores e criações. Pode ser feito de papel, argila, pano, madeira, plástico, impresso ou bordado, desenhado, pintado, esculpido, sonoro, mas também é concebido na tela do computador, smartphone, tablets. Neste último caso, por meio de invenção e reinvenção de algoritmos da linguagem de programação computacional que transforma, milagrosamente, dados numéricos em sons, imagens e palavras, voos do imaginário. Eis uma exposição-livro que pode-se ler, ver, escutar, ouvir na tela de tablets, smartphone e computador. 

 

Assim, aqui nesta exposição-livro, reunimos artistas da exposição “Movências: corpocidade” realizada em janeiro de 2020, acrescida agora em 2021 de criadores, pessoas de 18 a 95 anos da cidade de Belo Horizonte e também duas convidadas especiais da cidade de Salvador – Bahia: respectivamente, Iyálorixá Marlene de Nanã do Ilê Ibirín Omí Àṣẹ Ayrá e Lia Krucken, a artista, designer, pesquisadora da Universidade Federal da Bahia (UFBA). 

 

Em contato com as obras dos criadores e criações fui reenviado imediatamente aos récades (recados): objetos africanos que podem ser apreciados na coleção do Petit Musée de La Récade, na cidade de Cotonu, no Benin. Esses objetos são bastões ornamentados, com aparência de cetros, largamente utilizados no Reino de Daomé entre o século XVI e início do século XX. Criações emblemáticas, objetos de ação: performativos. São recados extraordinários se apanhados em sua natureza sígnica, onde a iconicidade, indicialidade e o simbólico se reenviam, dobram, redobram e desdobram entre si. Ou seja, os récades, em sua materialidade semiótica, portam e comportam uma miríade de significações, significados, significâncias e são amorosamente capazes de se apresentar como mensagens em si mesmas: recados lançados nas dobraduras possíveis entre os sentidos sensíveis (sens sensibles) e sentidos sensatos (sens sensé). 

 

De fato, no tempo presente, podemos revisitar os récades em museus, contudo, outrora, em África, em diversos momentos e contextos, eram também empunhados por um mensageiro e colocados em situação de mostração diante de uma audiência. Seja para convocar um assunto, debate, conversações: artifício estético, social, político, ético e cultural. Um artefato capaz de instaurar a experiência, a ação da imaginação criadora, o fazer, o dizer, as potências criativas dos corpos: seus gestos e suas mudanças de posições: deslocamentos. Os récades, sabemos, eram tomados como símbolo vicário de um convite literal ao bailado: à dança dos sentidos, baile, disseminação, viagem dos signos, mudanças de posições, silêncios e palavras: movências.

 

Guardadas as devidas diferenças, as obras que compõem a exposição Movências: (trans) figurações.livro.tempo, são criações onde há reenvios entre corpo e território, esses dois “irredutíveis ao universal” (3). Criações estéticas, mas são, igualmente, como os récades, artefatos, dinâmicos em seu encantamento, de presença e autoridade: moventes. Objetos políticos e, por excelência, de memória de povos negros, indígenas, de pessoas de várias centralidades periféricas de Belo Horizonte e Salvador/Bahia, pessoas LGBTQI+, pessoas em situação de rua, usuários do sistema de saúde mental (praticantes da luta antimanicomial), de “resistência e re-existência”. É certo. Pensemos. Aqui nesta exposição entra-se em contato com objetos de “àṣẹ”(4) para usar um termo yorùbá, “ao pé da letra”.

 

A expressão “delírios inspirados” é também um ponto de partida para traçar paralelos entre os récades e o conjunto de criações dos  criadores e coletivos presentes na exposição. Lembremos que na língua Fon (Fɔngbè), falada no Benin, dá-se aos récade o nome de “makpo”, cujo significado é, em francês, “bâton de la rage”  (bastão da raiva). É interessante notar que a palavra “raiva”, etimologicamente, vem do latim vulgar rabìa e do latim clássico rabìes, denotando doença, fúria, violência. Todavia, o termo “raiva”, na língua portuguesa, admite um significado inusual, porém precioso: “delírio inspirado”. Ora, em sua língua de poeta, o encantamento, na poesia, constata Manoel de Barros: “o verbo tem que pegar delírio” (5)

 

Pois bem, há na exposição-livro Movências: (trans) figurações.livro.tempo, “delírios inspirados”: verdades esquecidas, enigmas, segredos, encantamentos. Promessa de sentidos, trânsito, transfiguração, transição, transmutação, transe, permutação, deslizamento, interação, encontros, deslocamentos, desvios, desencontros: encruzilhadas. Espaços e temporalidades praticados por criadores da arte e da cultura, inventores e reinventores de sonhos, imagens e imaginários, a serem experimentados por aqueles que veem e se deixam ver neste terreiro. Olhemos, pois, é um convite.

 

Oní Sáà wúre/Sáà wúr àṣẹ (6)

Verão de 2021

Wilson de Avellar

 

 

Notas: 

 

  1. ROUANET, Sérgio Paulo. O Olhar Iluminista. In: o Olhar. São Paulo. Editora Schwarcz, 1989. p.131.

  2. Cf. DERRIDA, Jacques. Gramatologia. São Paulo: Editora Perspectiva, 1999

  3. SANTOS, Milton. Entrevista ao Jornalista José Corrêa Leite. São Paulo: Revista Teoria & Debate (Fundação Perseu Abramo) – Nº 40 – 06 Jul 1999. s/número de página..

  4. Axé na sua forma aportuguesada. Aprendi com os “meus mais velhos” que “Axé” é força, presença, poder que todo e qualquer ser ou coisa (visível ou invisível) comporta enquanto energia vital. 

  5. BARROS, M. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2011.

  6. Senhor do Tempo-Existência/Rogamos bênçãos e axé (livre tradução).

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transversal – redes de cidadania e direito à cultura

Durante a programação do 14º Festival de Verão UFMG, em 2020, tivemos a satisfação de receber, na Grande Galeria do Centro Cultural UFMG, a exposição Movências: CorpoCidade, que refletia a juventude que pulsava na Zona Cultural da Praça da Estação. Hoje, pouco mais de um ano depois e em um contexto completamente diferente, alegramo-nos por fazer circular trabalhos tão significativos mais uma vez. Esse novo contexto nos impõe diversas reinvenções, uma vez que os dias da montagem tornaram-se reuniões virtuais, o posicionamento das obras na galeria transformou-se em arquivos na nuvem e o encontro para a abertura tem um sabor diferente.

As sementes, que plantamos e cultivamos em 2020, culminaram nesta nova edição, com uma exposição em formato virtual de forma inédita. Este projeto especial foi desenvolvido com artistas de Belo Horizonte que circulam, trabalham, estudam e integram ações artísticas e culturais no entorno da Praça da Estação.

A Universidade reconhece a importância desse movimento e busca integrar-se ainda mais a ele, por meio de sua presença física no território, com o Centro Cultural UFMG, e como parceira de projetos desenvolvidos na região. A perspectiva da transversalidade sempre foi central nas políticas culturais da UFMG e do Festival de Verão, propondo a valorização das redes de cidadania para a efetivação dos direitos culturais. O histórico desta exposição, bem como o conjunto de artistas que a compõem, refletem esses aspectos e indicam a importância da presença destes trabalhos na programação do 15º Festival de Verão UFMG.

O projeto “Políticas de Cultura para a Juventude e Coletivos da Zona Cultural da Praça da Estação” envolve a Diretoria de ação Cultural da UFMG; a Prefeitura de Belo Horizonte, por meio do Centro de Referência da Juventude, da Escola Livre de Arte e do Circuito Cultural da SMC; assim como diversos projetos e coletivos culturais da Zona Cultural da Praça da Estação.

 

Fernando Mencarelli

Diretor de Ação Cultural da UFMG

 
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“fora do fazer não há solução”

(Rubens Valentim)

Sob este título, tomado de empréstimo do artista Rubens Valentim, registramos aqui: a exposição-livro Movências: (trans) figurações. livro. tempo, uma experimentação estética, política, social e cultural, começou a ser praticada por mim Wilson de Avellar, Estandelau, Isabel Miranda, Rafael Boneco e Rafael Martins em dezembro de 2020. É disponibilizada agora, no verão do ano de 2021. Sua versão seguirá inconclusa, inacabada como a arte, a cultura e a vida nos ensina. Tivemos como companheiros de viagem, dos “Encontrados” (expositores e convidados), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), por meio da Diretoria de Ação Cultural (DAC) e muitos outros seres: visíveis e invisíveis.

Ao longo do tempo de sua experimentação, algumas palavras povoaram o nosso imaginário: movência, (trans) figurações, livro, tempo. Palavras praticadas pela equipe por meio do fazer, do dizer, do conviver, para que começássemos a palmilhar a vida como ela é, e compreender como estas cinco palavras portam e comportam sentidos sensíveis (sens sensibiles) e sentidos sensatos (sens ensé). Palavras também lançadas aqui aqueles que veem e se deixam ver. Palavras que permitem fazer, conviver e dizer: dimensões da vida que toda experimentação prescinde.

Mesmo sem saber, desde o início, nos colocamos à trabalho sob as bênçãos Daquele que é movência em sua radicalidade: Ele encarna e favorece o Àṣẹ, força, presença, poder que todo e qualquer ser ou coisa (visível ou invisível) comporta enquanto energia vital. Palavras que nos convidam a praticar outras palavras: trânsito, transfiguração, transição, transmutação, permutação, deslizamento, interação, encontros, deslocamentos, desvios, desencontros: encruzilhadas.

Larôye Èsù ! Èsù Mojubá!

A Ele sempre pedimos as bênçãos e licença para entrar e sair, já que sabemos, é certo, temos que saber entrar e sair de todos os lugares que imaginamos.

 

(Oríkì fún Èsù)

 

Èsù òta Òrìsà.

Osétùrá ni oruko bàbá mò ó.

Alágogo Ìjà ni orúko ìyá npè é,

Èsù Òdàrà, omokùnrin Ìdólófin,

O lé sónsó sí orí esè elésè

Kò je, kò jé kí eni nje gbé mì,

A kìì lówó láì mú ti Èsù kúrò,

A kìì lóyò láì mú ti Èsù kúrò,

Asòntún se òsì láì ní ítijú,

Èsù àpáta sómo olómo lénu,

O fi okúta dípò iyò.

Lóògemo òrun, a nla kálù,

Pàápa-wàrá, a túká máse sà,

Èsù máse mí, omo elòmíràn ni o se.


 

(Oríkì para Exú - tradução)

 

Èsù, o inimigo dos orixás.

Osétùrá é o nome pelo qual você é chamado por seu pai.

Alágogo Ìjà é o nome pelo qual você é chamado por sua mãe.

Èsù Òdàrà, o homem forte de ìdólófin,

Èsù, que senta no pé dos outros.

Que não come e não permite a quem está comendo que engula o alimento.

Quem tem dinheiro, reserva para Èsù a sua parte,

Quem tem felicidade, reserva para a Èsù sua parte.

Èsù, que joga nos dois times sem constrangimento.

Èsù, que faz uma pessoa falar coisas que não deseja.

Èsù, que usa pedra em vez de sal.

Èsù, o indulgente filho de  Olódùmarè, cuja grandeza se manifesta em toda parte.

Èsù, apressado, inesperado, que quebra em fragmentos que não

se poderá juntar novamente,

Èsù, não me manipule, manipule outra pessoa.



 

***


 

 

Realização

 

Diretoria de Ação Cultural da UFMG

 

Diretor de Ação Cultural da UFMG

Fernando Mencarelli

 

Diretora-adjunta de Ação Cultural da UFMG

Mônica Ribeiro

 

Curadoria

Wilson de Avellar

 

Produção Cultural

Ludmila Soares

 

Encontrados 

 

Esmeralina Costa (Vó Biza)

Mestre Faria

Cláudio PC

Coletivo Irmãos Mamedes 

Carolina Mamedes

Gabriel Mamedes

Ismael Mamedes

Coletivo Filme de Rua 

Rafael Boneco

Alexsandro Trigger

Iago Marques

Daiely Gonçalves

David Guener

Kawany Tamoyos

Isabel Miranda

Iêda Carvalho

Cynthya Tatyelle

Jésus Almeida

Jonata Vieira

Pedro Neves 

Denise dos Santos

William Peterson

Iyálorixá Marlene de Nanã

Lia Krucken

 

Assistente de curadoria, expografia, montagem e edição e design do site

Estandelau

 

Assistente de Curadoria - textualidades 

Rafael Martins

 

Produção da Curadoria 

Isabel Miranda

 

Assistente de expografia, montagem e edição do site

Rafael Boneco

 

Comunicação

Bárbara Ester Profeta da Luz Siqueira, Emmanuelle C. Dias Miranda, Mariana Gonçalves, Nathália Vargens, Ana Cláudia Dias Rufino, Rani Fernandes, Fernanda TiemI Tubamoto, Cíntia Raquel Alves, Douglas Salustiano e Bruno Alves

 

Produção edição e montagem audiovisual

Wilson de Avellar

Estandelau 

Zafari (Anderson Miguel de Souza Faria) - Criação dos vídeos do Mestre Faria 

 

Fotografia  

Raphaella Dias

 

 

Agradecimentos 

 

Aos nossos ancestrais e antepassados, aos Orixás, a Mãe Marlene de Nanã, irmãos e irmãs, mais novos e mais velhos do Ilê Ibirin Omi Àṣẹ Ayirá (Vintém de Prata - Vila Violetta) de Salvador - Bahia. Escola Livre de Arte Arena da Cultura (ELA), Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Secretaria Municipal de Cultura de Belo Horizonte, Fundação Municipal de Cultura de Pelo Horizonte, Diretoria de Políticas Culturais e Participação Social da Fundação Municipal de Cultura, Centro Cultural da Universidade Federal de Minas Gerais, Centro de Referência da Juventude (CRJ), Oi Kabum BH Escola de Arte e Tecnologia, funcionários da Diretoria de Ação Cultural da Universidade Federal de Minas Gerais, Seu Zé Mestre do Pião de Chicote (José Reis), Abilde, Antonio Tadeu Fagundes Junior, Mestre Gersino, Bárbara Boff, Fabíola Moulin, Sônia Augusto, Henrique Limadre, Samira Ávila, Beatriz de Almeida Magalhães, Tatiana Cavinatto, Coordenadores das Áreas de Formação e Criação Artística da ELA (Alessandra Brito, Ailton Gobira, Weslley Simões, Márcia Neves, Márcia Guerra, Titane, Walmir José, Marcos Vogel, Affonso Monteiro, Amaury Reis, Simone Moura, Ana Luísa Santos, Rui Santana), professores e professoras da ELA, Ana Tereza Melo Brandão, Cynthia Cy Barra, Lia Krucken, Cinara Araújo, Lúcia Castelo Branco, Waler Mamedes, Luzinete Mamedes, Damião Costa.

 

 

Òrìṣà goolu

 (Oríkì de Wilson de Avellar)

 

 ofeefee ife ti nmu asopọ

 goolu ofeefee ife ọna asopọ

 orire oore ofe

 

 ṣii ọwọ, gba mi

 ogbo Osun

 Mo ki yin

 Obirin ti o kede ara re

 

Òkun fun ọgbọ́n nla 

o kun fun oye

lati odo de okun


 

 

Òrìṣà dourada

 (Oríkì de Wilson de Avellar - versão em  português)

amarelo amar elo dourado

dourado amarelo amar elo

sorte graciosa sorte

 

mãos abertas, aceite

Ọ̀ṣun amadurecida

eu te saúdo

feminino se declara

 

grande em sabedoria

cheia de compreensão

do rio ao mar

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